As perdas técnicas em sistemas de distribuição de energia elétrica constituem um dos principais indicadores de eficiência operacional das concessionárias, estando diretamente associadas às características físicas da rede e ao comportamento da carga.
No contexto regulatório, a apuração dessas perdas passou por um avanço metodológico relevante a partir da Nota Técnica nº 0057/2014-SRD/ANEEL, que marcou a transição de abordagens agregadas para métodos baseados em fluxo de carga. Nesse cenário, foi introduzido o uso do OpenDSS como ferramenta de cálculo para redes de média e baixa tensão, permitindo uma representação mais fiel das condições elétricas reais da rede.
Com essa evolução, a qualidade dos resultados passou a depender diretamente das bases de dados utilizadas na modelagem. A incorporação da BDGD ao processo regulatório, formalizada pelo Módulo 10 do PRODIST em 2016, consolidou essa mudança ao estabelecer requisitos para organização, padronização e envio de informações georreferenciadas pelas distribuidoras.
A partir desse ponto, os dados físicos e elétricos da BDGD tornam-se a principal entrada para o cálculo das perdas técnicas — e, consequentemente, o processo passa a ser altamente sensível à consistência, completude e qualidade dessas informações.
Modelos baseados em fluxo de carga, embora mais precisos, são inerentemente sensíveis à qualidade da modelagem elétrica. No OpenDSS, a solução do fluxo de potência depende diretamente da coerência topológica da rede e da precisão dos parâmetros elétricos informados. Inconsistências nesses elementos podem não apenas distorcer os resultados, mas também comprometer a convergência do sistema.
Na prática, esses problemas estão frequentemente associados a falhas na BDGD, como:
- Trechos de rede desconectados;
- Inconsistências de barramentos;
- Erros de vinculação entre PAC;
- Definição incorreta de fases;
- Parâmetros elétricos inadequados (resistência e reatância); e
- Alocação indevida de cargas ao longo do circuito.
Quando presentes, essas inconsistências fazem com que o modelo deixe de representar adequadamente a rede real, resultando em fluxos de potência fisicamente incoerentes ou incompletos. Como o cálculo das perdas técnicas é altamente sensível à corrente elétrica, pequenas distorções na modelagem tendem a ser amplificadas, impactando diretamente a confiabilidade dos resultados.
Para avaliar esse efeito de forma prática, foi realizado o cálculo das perdas técnicas em um alimentador real de uma distribuidora, utilizando dados abertos da BDGD disponibilizados pela ANEEL. O circuito analisado possui aproximadamente 14.450 cargas, demanda máxima de 12 MW, cerca de 350 transformadores e 111 km de rede.
Figura 1 – Topologia do alimentador, com a rede de média tensão destacada em vermelho e a baixa tensão em azul.

Foram avaliados quatro cenários distintos:
- Caso base, com modelagem consistente;
- Inserção de trechos isolados (falhas de conectividade);
- Erro de parametrização elétrica (reatância incorreta); e
- Desbalanceamento de carga, com concentração em uma única fase.
Os resultados evidenciam que diferentes tipos de inconsistência impactam não apenas a magnitude, mas também a direção do desvio no cálculo das perdas, podendo levar tanto à subestimação quanto à superestimação dos valores.

Figura 2 – Resultados comparativos de cenários.
Destaca-se que um único erro de parametrização foi capaz de provocar um desvio de até 1,45% em relação ao caso base, evidenciando a elevada sensibilidade do modelo. Considerando que, na prática, múltiplas inconsistências podem coexistir na BDGD, seus efeitos tendem a se acumular, ampliando progressivamente a distorção dos resultados.
Nesse contexto, a qualidade da BDGD deixa de ser apenas um requisito de conformidade regulatória e passa a ser um fator determinante para a confiabilidade das análises elétricas. Erros de topologia, parametrização ou modelagem de carga se refletem diretamente nos indicadores operacionais.
Garantir a integridade da base, portanto, não é uma etapa acessória — é parte essencial do próprio cálculo das perdas técnicas.
Com esse objetivo, a Norven, por meio da plataforma Geon, oferece uma solução integrada para gestão da BDGD, permitindo validar, corrigir e analisar os dados de forma estruturada. Alinhada às exigências regulatórias, a ferramenta contribui diretamente para o aumento da confiabilidade das simulações e para a melhoria da tomada de decisão.